quarta-feira, 13 de abril de 2016

Na lua ele morava.


Meu primeiro namorado, 
foi só meu.
E o tempo em que estivemos juntos, 
eu fui só dele.

Na meninice da fresca idade,
meus dias eram contados 
pelos suspiros dados 
e pensamentos vagos.

Minha mãe gritava  
“- Menina, saia do mundo da lua”
mas a lua tinha olhos azuis
e cabelos loiros 
utopia seria, voltar de lá.

Era na lua que eu ficava
(e na lua que ele morava)
tamanha distância física de nossas épocas desiguais.

Ele, com suas namoradas mais velhas,
todas lindas
maiores de idade.
Ele, com seu comportamento rebelde,
ideal rijo,
e autonomia.

E eu, corpo atrofiado,
aparelhos nos dentes,
e minha grande idade infantil.

Meu primeiro namorado não sabe
mas se existe aquela verdade 
de permanecer desperto quando alguém sonha contigo,
Muitos dos seus dias de insônia
foi porque ele vivia acordado

nos meus dias e noites de sonhos.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Durante o jogo II


“- Treinador, venha aqui:
Eu quero sair do Time dos Tontos.
Eu preciso de um tempo, quero ficar fora de campo.
Desse jeito, não dá, treinador. Está ficando cada dia mais difícil.
Nosso time está fraco, treinador. Nosso time está exaurido.
O time dos Espertos está grande, cara. Os Espertos estão mais fortes. 
E eles têm patrocínio. 
Estão tomando Whey Protein, treinador. E nós suplementamos com o quê?
Eles tem GH, treinador. Têm em cápsula, têm injetável.
Olhe o tamanhos deles, cara.
Eles estão robustos.
Eles riem da nossa cara, treinador. Eles dominam o campo.
E fora daqui, nos apontam: ‘Olha aí, um dos Tontos’.
Eles se reúnem fora de campo, estão em festas, estão em todos os lugares, treinador. Usam todos os tipos de roupas, se misturam com os nossos. 
Ele têm jogadores infiltrados, que se fingem de Tontos.
Mas na hora da verdade, treinador, eles correm. E como correm rápido, hein?
O pior, treinador, não tem sido só eles se fingirem de contundidos, essa manha nós já pegamos, né? A nova tática dele é jogar a culpa em nós. 
Durante o jogo, eles nos derrubam, e nos levantam na frente do juiz, pra fazer bonito: Enquanto nos levantam, fingem também de arrependidos: ‘Desculpe se você caiu’. Como se a gente tivesse tropeçado, treinador! Eles no empurram, nos derrubam, passam a perna em nós e pedem desculpas pelo erro que nós cometemos ao sermos derrubados? Que tipo de desculpa é esse, treinador?
Precisamos fazer alguma coisa, treinador. Precisamos de mais gente no nosso time. 
Precisamos começar a treinar nossos filhos, porque os Filhos dos Espertos também estão crescendo. E os filhos Deles estão também convencendo aos Nossos.
Precisamos arranjar alguma forma de mostrar pra torcida que nosso Time não tem recurso financeiro, mas nosso Time tem paz no espírito.
Precisamos de mais técnica, treinador. Precisamos de mais tática. Precisamos de mais ginga. Precisamos de estratégia. Precisando de destreza. Precisamos de audácia, treinador!”

Treinador: “- Sendo assim, seríamos como eles.”

“- É verdade, treinador. Deixa pra lá. Foi só um desabafo.
Vamos jogar.”

Intertextualização da crônica Durante o Jogo de setembro de 2015

sábado, 2 de abril de 2016

No mundo das águas

Foi em um camping, em sua pouca idade, onde viu um lago para primeira vez.
Seus amigos todos queriam correr e saltar.
Todos eles nadavam, jogavam pedras.
Ele não.
Ele ia pra margem mais calma, ficava olhando para a água e observava os peixes.
Entendeu que onde havia silêncio, havia confiança. 
E foi no silêncio de uma beira de lago que aprendeu a olhar para dentro, mesmo vendo seu reflexo estremecido pela água agitada dos peixes que nadavam ali, sentia apenas calmaria.
Todas as vezes que podia, voltava para seu lugar. 
Apesar de tanta gente lá frequentar, ele elegeu o lugar só para si. Pelo menos, aquele canto à beira do lago, onde via muito mais que seu rosto na água. Achava o que queria para sempre dentro dele mesmo: a paz.

Mas o menino cresceu. E a cidade cresceu. 
E a cidade, a modernidade, a sociedade, todos eles o engoliram: mastigaram e deglutiram, como fazem com a maioria.
Trabalhou. Casou. Exaustou.
Sufocou. Cansou. Acabou.

Não nessa pressa, mas na ligeireza que o mundo louco atravessa nossas vidas. Como um trem de alta velocidade, onde dentro dele, com pés apoiados, você não percebe sua rapidez, porém quando olha para fora, percebe que está em outro lugar, em outro tempo, e com outra forma.

Agora homem, ele não pode mais fugir. 
Agora, ele é sensato, tem obrigações, tem aspirações. Deve cumprir com suas ordens, deve prestar contas, deve pagar dívidas. 
Mas mesmo assim, ele desobedece.
Quando em vez, ele desce desse trem maluco, e corre para dentro de si. 

Hoje, ele não elegeu só um canto do lago do antigo camping: ele tem o mundo das águas para si.
Hoje, ele vai para qualquer lugar, qualquer água: seja lagoa, rio ou mar. 
Se perde do mundo e encontra aquele menino que um dia já foi. E vai pescar.


*homenagem ao meu leitor de número 38.000