segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Quem irá nos defender?


Outro dia, vivi uma situação bem desconfortável e vim aqui narrar para vocês.
Faço treino em uma academia em minha cidade e, durante um exercício no transport, tive uma queda de pressão. Como minha pressão já é baixa e esse movimento não é incomum, tomei as atitudes que precisava tomar: primeiro saí do aparelho, não melhorando, me sentei. Ainda sentindo mal estar, resolvi me deitar.
Enquanto isso, um rapaz que treina comigo todos os dias, na máquina ao lado. 
Não sei quanto tempo eu fiquei ali passando mal, até um instrutor se aproximar e trazer algum apoio.
Não que eu realmente precisasse de ajuda, visto que, como eu disse, esse quadro não é incomum. Mas eu fiquei pensando que, eu poderia ter realmente passado mal, a modo de precisar de ajuda imediata, e quem estava ao meu lado não se importou. Ao contrário, no transport ele estava e lá ele ficou, sem sequer parar seu exercício. 
Depois disso, passei a analisar o quanto temos nos envolvido com a vida dos demais e também a relembrar algumas coisas bem importantes que acontecem no mundo nesse momento e você, eu e todos os outros somos responsáveis por.
Assusta à mim, claro, a falta de segurança, em geral. Mas o que assusta mesmo, é o quanto todo mundo se evade de qualquer situação que julgue não precisar de envolver.
É de envolvimento que estou narrando e de envolvimento que o mundo está ausente.
A falta de segurança e as ameaças que vivemos, devem ser combatidas imediatamente, afinal, estamos reféns do tudo e de todos e a cada dia nos fortificamos daquilo que mais nos proteje: sejam cercas, fios, coletes, blindagens, muros ou armas de fogo. Igualitária a quantidade de blindagem, está a cerca que construimos ao nosso redor e que nos afasta e nos mantém reféns de nossos medos.
De uns tempos para cá, bem pouco mesmo, tenho notado que, a cada dia, menos nos envolvemos com os outros e suas dificuldades, nos abstendo de situações que julgamos nos serem indiferentes e damos munição a própria insegurança.
Pense bem, quando foi a última vez que você viu alguém em uma situação desconfortável e qual foi sua postura/ atitude e também as dos demais que estavam no entorno. Possivelmente, sua resposta será que um número ínfimo de pessoas, de fato, se importou.
Estamos todos enjaulados em nossa pseudo segurança ou em nosso conforto, preocupados demais com nosso umbigos, enquanto somos coniventes com alguns ataques.
Quanto menos nos importarmos e quanto menos nos envolvermos com a dificuldade alheia, maior será a vantagem daquele que está mal intencionado.
Comecei essa crônica narrando um mal estar de saúde e passei a falar de segurança, e você pode estar se perguntando o por quê… 
Porque a conexão da ideia é que, independente do tipo de ajuda que estivermos precisando, a chance de alguém não se envolver é grande e a nossa chance de mantermos-nos íntegros diminui. Seja por um mal estar súbito ou por uma violência física. A cada dia que passa, quem está ao nosso redor, defende a ideia de que ‘isso não me pertence’ e se abstém de nos auxiliar.
As pequenas atitudes que deixamos de fazer, vivendo nossas individualidades, tem potencializado as chances de sermos atacados. O fato de nos importarmos menos ou não nos importarmos com o que acontece ao nosso redor, nos distancia da nossa natureza humana e nos faz reféns de uma postura egóica, mesquinha.
Quando não nos importamos com a dificuldade do outro, deixamos de pertencer a raça humana e passamos a ser objetos de uma rotina louca, insana e sem empatia.
A violência do mundo me assusta, mas me assusta ainda mais saber que, eu poderei precisar de ajuda (assim como meus filhos, meus pais, meus amigos), sendo vítima de uma violência e quem estiver por perto, um cidadão ‘de bem’, não querer se envolver e passar batido por mim e de minha dificuldade.
O número de assaltos, o numero de ataques, sequestros, estupros, assédios, me apavoram. Mas me horroriza imaginar que cresce o número de pessoas que não se afetam pelo problema do outro e a consequência disso é o municiamento involuntário para a violência em geral.
Precisamos de polícia. Mas precisamos também de pessoas mais humanas, afinal, “quem irá nos defender” de nós mesmos?

terça-feira, 17 de julho de 2018

A Doutora de nada sabia.

A Doutora de nada sabia.

Você chorava baixinho. 

Não era exatamente um choro, parecia um filhotinho gemendo, sem soluço, mas com aquele medo de quem acabou de sair de um abrigo e foi forçado a viver outro mundo desconhecido. Choramingava.
A médica pediatra, cheia de sensibilidade, apresentou você à mim:

“- Essa é sua mãe, você estava dentro da barriga dela. Agora ela vai cuidar de você aqui fora, e te proteger como quando você morava lá dentro”.
E encostou sua cabeça em meu rosto, e eu te senti quentinho e cheiroso. Conversei com você e você parou de choramingar... ali, me ouvindo, como quem reconhece a minha voz...

Mas a sensível médica, não sabia a quem ela apresentava.
Porque, se ela nos conhecesse hoje, possivelmente, mudaria a apresentação para: “- Léo, essa é sua mãe, você morava na barriga dela e daqui em diante, dela, você cuidará. 

Você a ensinará a amar, a amadurecer, a se fortalecer, e a ser uma melhor pessoa. 
Você será seu melhor amigo, seu confidente, seu conselheiro. 
Dela, você será abrigo em todos seus momentos de angústia. 
Você a guiará nos dias tortuosos, mas também vibrará com ela e por ela, quantas conquistas ela tiver.
Você a apoiará em decisões difíceis. 

Você apontará caminhos quando a cegueira da emoção a acometer.
Juntos, vocês passarão tardes incríveis, viagens incríveis e dividirão músicas, assim como amigos.
Vocês serão confidentes mas, mais do que isso, serão parceiros.
Vocês serão respaldo e apoio mútuo.
Assistirão filmes.  

Dividirão experiências como poucos mãe e filho conhecem.
Vocês irão filosofar e idealizar mundos que não poderão viver, mas entenderão que poderão exercê-lo no próprio lar.
Você aprenderão a ser melhores pessoas, pessoas leves e encontrarão diversão em todos momentos que passarem juntos.
Vocês serão a base de uma sólida família e terão um laço que se estenderá para a eternidade.”

A tal Doutora, com tamanha sensibilidade, não sabia nada de nós. 

Errou em colocar que eu cuidaria de você, sendo que quem cuida de mim, há exatos 20 anos, é você.
A Doutora poderia ter conhecido muitos partos, mas é possível que ela não saiba da grandeza do encontro que ela participou.
Ela participou do nascimento de uma união que está acima do laço maternal.
Ela esteve ao lado do encontro do homem que traria ainda mais vida para a minha vida. De quem agrega conhecimento à mim e aos demais qual convive. 

De um homem que tem a atenção de perceber alteração hormonal feminina e a sensibilidade de apontá-la sem rispidez.
De um homem sensível que descreve a lua como “é só um fiozinho, como um sorriso”, mas que é forte o suficiente para enfrentar os medos da mãe e das irmãs.
Ela presenciou a chegada e o início de um amor único, como ela deve achar que participa de outros. 

Mas não, Doutora, esse aqui foi muito mais...
Esse foi o encontro de almas antigas, que se enlaçam em muito mais que o sangue, mas em cumplicidade.


A Doutora te apresentou à mim. E você me recebeu.
E nestes vinte todos anos eu recebo a benção de ter um amor como o seu.

A Doutora de nada sabia. 

Ou já sabia de tudo e, como os grandes sábios que preveem o futuro, só deixou para o tempo me mostrar...


Em comemoração ao aniversário de Leonardo Lazari 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Felicidade levada a sério

Recebi um vídeo lindo de um amigo desses raros, conectado através de algo maior que a nossa irmandade conhece.
Nesse lindo vídeo, propaganda de uma malharia, uma história de um menino, estimulado por sua mãe em sua tenra infância, a viver a vida da forma certa. 
O vídeo chamou-me atenção, claro. Mas meus pensamentos foram para a atriz qual protagonizou a mãe do menino...

Eu a conheci  em mil novecentos e não sei quantas, lá pelos meus 16 anos, em um concurso de beleza.
Essa moça, hoje não mais tão moça,  ganhou o concurso e eu fiquei em segundo lugar.
Um dos jurados, dono de uma agência de modelos, me contatou pós resultado, oferecendo uma oferta de emprego e ressaltando: “- Você não ganhou porque não levou à sério. Estávamos em dúvida a quem dar o primeiro colocado, mas a sua postura não te ajudou. Você sorria demais, estava solta demais. Você precisa aprender a se conter, a mostrar seus ângulos, a fazer pose.”

Enquanto assisti ao vídeo, fiquei indagando se não poderia ser a mim lá no lugar da modelo/atriz. Afinal, a acompanhei de longe, e ela seguiu a carreira de modelo e atriz e assim trabalha desde sempre. 
Pensei que eu poderia ter sido menos solta ou mais contida e ter conquistado outros momentos ou pessoas.
Voei com meus pensamentos sobre todas as outras coisas, eventos e pessoas qual não me “classifiquei” por não levar “à sério”.
Lembrei do namorado que não tive porque sou extrovertida demais.
Lembrei do cargo que não permaneci porque não poderia cumprir normas quais não aceito.
Do relacionamento que partiu porque eu sou livre demais. 
E dos relacionamentos qual não participo porque são sérios demais, presos demais, chatos demais ou contidos demais. 
Lembrei de muitos outros eventos quais eu precisei ser contida, impedida, comedida. Lembrei de tantos momentos que fui avaliada, advertida. 
Relembrei as sensações que envolvem todos esses momentos onde o outro pede para eu que deixe de ser tão leve, ou tão sonhadora, ou tão alegre ou tão feliz. 
De tantas vezes que sou acometida pela frase “mas você não vê o lado ruim nunca?” Ou qualquer coisa que indague sobre minha escolha de tentar seguir essa linha de viver de forma simples e inadvertidamente feliz. 


E então, dei por mim, que nada disso poderia acontecer de qualquer forma comigo. 
Porque se eu tivesse repreendido, ou calculado ou qualquer outra atitude que impedisse de deixar o riso solto, a mente fresca e o coração livre, eu não teria sido eu mesma. 
Entendi que dentro de mim existe um universo inteiro incrível, único, feliz e do bem. E de bem com a vida.
Entendi que eu levo sério a vida sim. Mas da minha forma. Que não há desrespeito ou descompromisso em meu comportamento. Eles só não são entendidos por quem não os compreende por não serem assim também

Ao final do vídeo aparecem as frases
 “Viva com todo seu coração.”
“A vida é boa quando você é bom.”

E sei que eu não sou a atriz, mas exerço exatamente as palavras que a personagem ensina ao filho no citado vídeo. 
Afinal, sou atriz de outros espetáculos. 
E dei por mim que não fui eu que não tive à “eles”.

Na verdade, foram “eles” que não tiveram à mim.
Porque ser feliz é algo muito sério para mim.