terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A coragem que lhe faltava



Ela estava cansada
Cansada de tanto caminho
de tanta pedra
de tanta torre 
de tanta carta
de tanta promessa
e tanta aproximação vaga. 
Até de passarinho, ela se cansava
quando algum insistia em altura 
e no alto da torre voava. 
Ela se cansava de tanto silêncio
e de tanto barulho
dentro daquele abrigo
que a voz do monstro alcançava.
Daquelas muitas noites
ela estava cansada 
e de tantas estrelas escondidas 
atrás de nuvens pesadas. 
Cansada ela ficava 
das horas vagas da madrugada 
dos clarões e de espaços nulos
da hora que não passava 
Ela estava cansada das canções
que sozinha cantava
ela estava cansada
e lá somente estava
porque coragem lhe faltava
(como o amor que ali não chegava)
Faltava a coragem de quem voava
e de súbito anulava 
tormento aquele qual o chão alcançava 
E do alto ela esperava
dia que a coragem, ela pensava, 
em apenas um salto
tudo apagava. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

E você? Sente o quê?

Sabe, gente...
A gente nunca sabe o que o outro carrega consigo. A gente não é capaz de,  em uma conversa, em uma história, em uma sessão de terapia conhecer alguém. 
A gente NUNCA, nunquinha vai ler o livro do outro como ele escreveu, de fato. O papel não era nosso, nem a caneta, nem a tinta. 
A gente sempre vai ler com os olhos que a vida deu, com a bagagem e a experiência que têm. Com o alfabeto que aprendeu. 
Somos todos seres errantes, flutuantes, viajantes, navegantes, sei lá. 
Somos todos almas etéreas presas obrigatoriamente em corpos que cortam, e egos que ferem ainda mais. 
Tudo isso para dizer que é preciso ter respeito demais com a história do outro, e reforçar que quando alguém conta o que sente, a gente precisa é aprender a apenas ouvir, ouvir com o coração e não com uma interpretação imediatista e egocêntrica. 
O mundo já está cheio demais de gente que é dono da verdade e cheio de razão. De gente que errou pra caramba, mas precisa apontar o erro no outro para o dele diminuir. Gente que ouve uma história e imediatamente começa a contar a sua, fazendo daquele que procura ajuda, apenas expectador. Gente que tem uma vida oca e precisa danificar a vida do outro para trazer algum movimento à sua.
A gente precisa urgentemente aprender a ouvir e a silenciar uma vontade louca de ser mais, melhor ou saber muito.
A gente precisa urgentemente aprender a ouvir e ponto. 
E, de repente, quem sabe, aprender a ter compaixão de verdade. 
Porque a compaixão é você identificar aquilo que o outro sente como sendo seu. 
Mas... mais uma vez: é preciso entender demais sobre sentimentos para poder entender ao outro. Porque só sentindo muito e sentindo profundamente a muitos sentimentos é que a gente consegue ler o livro de alguém e tornar esse livro tão importante quando aquele que a gente mesmo escreve. 
Normalmente, um bom leitor já deu umas topadas na vida. Já caiu, já ralou e continuou a caminhar mesmo
mancando. 
Esse cara é aquele que já perdeu um monte e aprendeu a ler aos outros, com o respeito que o outro merece. 

Para ser um bom leitor, é preciso ter “sacudido a poeira e dado a volta por cima” tantas vezes e a ponto de, quando ler ao outro, entender que nem tudo é ponte para felicidade, que todos têm seus dias difíceis. Que nem sempre sofrer é autopiedade. E que ouvir, além de tudo, é aprender com o outro, sem precisar aparecer.

É isso, minha gente. Um bom leitor (ou bom ouvinte) é aquele de sente. E sentir, nem todo mundo sabe. 

E você? Sente o quê? 


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Quem irá nos defender?


Outro dia, vivi uma situação bem desconfortável e vim aqui narrar para vocês.
Faço treino em uma academia em minha cidade e, durante um exercício no transport, tive uma queda de pressão. Como minha pressão já é baixa e esse movimento não é incomum, tomei as atitudes que precisava tomar: primeiro saí do aparelho, não melhorando, me sentei. Ainda sentindo mal estar, resolvi me deitar.
Enquanto isso, um rapaz que treina comigo todos os dias, na máquina ao lado. 
Não sei quanto tempo eu fiquei ali passando mal, até um instrutor se aproximar e trazer algum apoio.
Não que eu realmente precisasse de ajuda, visto que, como eu disse, esse quadro não é incomum. Mas eu fiquei pensando que, eu poderia ter realmente passado mal, a modo de precisar de ajuda imediata, e quem estava ao meu lado não se importou. Ao contrário, no transport ele estava e lá ele ficou, sem sequer parar seu exercício. 
Depois disso, passei a analisar o quanto temos nos envolvido com a vida dos demais e também a relembrar algumas coisas bem importantes que acontecem no mundo nesse momento e você, eu e todos os outros somos responsáveis por.
Assusta à mim, claro, a falta de segurança, em geral. Mas o que assusta mesmo, é o quanto todo mundo se evade de qualquer situação que julgue não precisar de envolver.
É de envolvimento que estou narrando e de envolvimento que o mundo está ausente.
A falta de segurança e as ameaças que vivemos, devem ser combatidas imediatamente, afinal, estamos reféns do tudo e de todos e a cada dia nos fortificamos daquilo que mais nos proteje: sejam cercas, fios, coletes, blindagens, muros ou armas de fogo. Igualitária a quantidade de blindagem, está a cerca que construimos ao nosso redor e que nos afasta e nos mantém reféns de nossos medos.
De uns tempos para cá, bem pouco mesmo, tenho notado que, a cada dia, menos nos envolvemos com os outros e suas dificuldades, nos abstendo de situações que julgamos nos serem indiferentes e damos munição a própria insegurança.
Pense bem, quando foi a última vez que você viu alguém em uma situação desconfortável e qual foi sua postura/ atitude e também as dos demais que estavam no entorno. Possivelmente, sua resposta será que um número ínfimo de pessoas, de fato, se importou.
Estamos todos enjaulados em nossa pseudo segurança ou em nosso conforto, preocupados demais com nosso umbigos, enquanto somos coniventes com alguns ataques.
Quanto menos nos importarmos e quanto menos nos envolvermos com a dificuldade alheia, maior será a vantagem daquele que está mal intencionado.
Comecei essa crônica narrando um mal estar de saúde e passei a falar de segurança, e você pode estar se perguntando o por quê… 
Porque a conexão da ideia é que, independente do tipo de ajuda que estivermos precisando, a chance de alguém não se envolver é grande e a nossa chance de mantermos-nos íntegros diminui. Seja por um mal estar súbito ou por uma violência física. A cada dia que passa, quem está ao nosso redor, defende a ideia de que ‘isso não me pertence’ e se abstém de nos auxiliar.
As pequenas atitudes que deixamos de fazer, vivendo nossas individualidades, tem potencializado as chances de sermos atacados. O fato de nos importarmos menos ou não nos importarmos com o que acontece ao nosso redor, nos distancia da nossa natureza humana e nos faz reféns de uma postura egóica, mesquinha.
Quando não nos importamos com a dificuldade do outro, deixamos de pertencer a raça humana e passamos a ser objetos de uma rotina louca, insana e sem empatia.
A violência do mundo me assusta, mas me assusta ainda mais saber que, eu poderei precisar de ajuda (assim como meus filhos, meus pais, meus amigos), sendo vítima de uma violência e quem estiver por perto, um cidadão ‘de bem’, não querer se envolver e passar batido por mim e de minha dificuldade.
O número de assaltos, o numero de ataques, sequestros, estupros, assédios, me apavoram. Mas me horroriza imaginar que cresce o número de pessoas que não se afetam pelo problema do outro e a consequência disso é o municiamento involuntário para a violência em geral.
Precisamos de polícia. Mas precisamos também de pessoas mais humanas, afinal, “quem irá nos defender” de nós mesmos?