sexta-feira, 17 de março de 2017

Hoje é dia de pagamento

Foto por: Daniela Petrucci

Hoje é dia de pagamento. 
Hoje é dia que a minha quase carreira de administradora com ênfase em Comércio Exterior, faz-me pensar no balanço pessoal.
Para quem não sabe, em uma empresa balanço é equilíbrio entre o ativo e o passivo + o patrimônio líquido.
E toda tranquilidade, fazendo a similaridade da vida pessoal com vida a financeira, advém de um equilíbrio entre doação, recebimento e aquisição. Essa é minha analogia de hoje.
Hoje faz 20 anos que a aviação me aceitou para si. Hoje, dia 17 de março, completo vinte anos de muita vida voada por aí.
E todo aniversário me faz refletir sobre meus atos: em meus ganhos, minhas ofertas e a soma disso tudo dentro de mim.
Parei para pensar quantos momentos já vivi. E enquanto escrevo, explode uma emoção que não saberia descrever. Revejo, aos poucos, cada momento passado e muitos deles, carimbados em minha alma e em meu coração. 
Nem todos foram flores. Nem todos foram fáceis. Mas já vivi circunstâncias que somente a aviação pode proporcionar, diríamos nós os tripulantes, coisas que os “normais” não entenderiam.
Já vi abraços de despedida onde peitos quase explodem de tristeza, assim como, abraços de chegada que contém amor inexplicável.
Já vi choro por muitas emoções: de quem recebe a notícia que terá um filho, de quem recebeu a notícia que perdeu um. De quem se despediu para voltar em breve, de alegria por voltar, choro por não poder voltar mais. De quem sai do lugar apenas contrariado. Choro de medo, de quem tem pânico... E para todos eles, eu tive um lenço, uma palavra ou um abraço (naqueles onde palavras não cabem em qualquer lugar).
Já vi pedido de casamento. E já vi brigas e desaforos conjugais.
Já vi romance, afagos e carinhos. E já vi desdém inadmissíveis (e acreditem, muitos).
Já vi olhares de gratidão no meio da madrugada apenas por oferecer um copo d’água. Já vi desprezo enquanto oferecia toda a atenção da profissional que devo ser.
Já vi gente simples sendo amável. Já vi gente rica com muita pobreza de espírito. Vi pessoas de todas as classes agradecendo, olhando nos olhos e sendo afável. Assim como já  presenciei aspereza e indelicadeza, seja de colega ou de passageiro (mas graças a Deus, foram em número muito menor) e eu continuei acreditando na gentileza.
Já ajudei a iniciar um amor (sim, já fui cupido), como eu mesma já comecei uma linda história (enquanto durou) lá nas alturas. 
Já levei crianças sozinhas para distantes terras e as fiz sentir-se em casa. Já fiz bebê dormir em meu colo, já troquei fralda e amamentei, enquanto quem as transportada agradecia pelo ato que não conhecia executar. 
Já fiz muita criança sossegar seus ânimos apenas contando a verdade, sem dar bronca, sem intimidar, enquanto seus pais os ameaçam com a minha autoridade. Da mesma forma que já vi muito pai e mãe ensinar uma forma respeitosa de se comportar em ambiente público.
Já vi gente morrer. Infelizmente, mais que uma vez. E esses dois momentos então encravados em minha alma de um jeito que não sei descrever. Nesses momentos senti a impotência que o fechar das cortinas traz e fiquei com a reflexão da qualidade do tempo que temos (apesar de acharmos sempre que temos pouco e o usarmos contra nós).
Já vi um aborto acontecer. E a mulher sair com um feto em mãos, aliviada. Neste dia aprendi que meu trabalho deve estar acima de meus conceitos.
Já fui psicóloga, socorrista, ou apenas atenciosa em momentos de debilidade de saúde, para passageiros e para colegas de trabalho. E entendi que a dor muda nosso comportamento e nos fragiliza de forma a aceitarmos toda mão que nos é estendida.
Já inventei comida para quem tem restrição alimentar, acreditem, `as vezes são situações difíceis, mas nunca vi alguém desembarcar com fome por falta de iniciativa.
Já fiz festa de aniversário. Inventei bolo, cantei parabéns. Para criança, para adulto e para colegas. Assim como, já ganhei minha própria festa surpresa dentro do avião, com direito a vela (não acesa, claro) e presente: foi um dos dias que mais chorei de emoção.
Já preparei despedida para quem partiria para outros voos. Já fiz homenagem para quem deixou o país. Já vibrei com as conquistas de muitos colegas, e pude presenciar meus amigos de profissão se destacarem como chefs, pianistas, cantores, arquitetos, decoradores, empresários, artistas plásticos, atletas, designeres, inventores. Descubro a cada voo um galáxia de predicados em colegas de trabalho.
Aprendi exatamente isso: cada voo proporciona a oportunidade de conhecer cada pessoa que mora dentro do profissional que convivo: e sou grata a toda generosidade desse universo de diversidades culturais. Conheço pessoas com inúmeras habilidades e cada um deles, modifica à mim, com esse predicado incrível da aviação… o quanto ficamos próximos e íntimos em apenas uma sequência de trabalho, coisa, mais uma vez, que os normais custam a entender.
Já conheci passageiro famoso. Muitos. E entendi que são apenas pessoas.
Já conheci muita gente desconhecida mundialmente, que traz consigo tanto brilho e carinho. E que os transmitem porque sim.
Já ouvi as mais incríveis histórias e fui ouvidos a muito passageiro que precisava desabafar/contar/extravasar.
Já recebi cartões e convites, e os declinei com gentileza. Já fui assediada com mais ênfase e fui obrigada a impor alguma aspereza.
Já encontrei bolo gordo de dinheiro importante e o devolvi. Já encontrei  livro, caneta, óculos de pessoas que nunca mais se queixaram por eles.
Já vi gente esquecer de tudo por aí:  vi esquecem de celular, adaptador, casaco, a até mesmo um membro da família; e tive que a prender a entender. 
Eu mesma já chorei. Chorei por precisar ir e por querer voltar. Chorei várias vezes: chorei quando meu filho entrou em minha mala (tinha menos de 2 anos) e falou “leva eu” e tive que explicar cheia de racionalidade um momento, mas só pude desabar quando estive só. Já chorei quando perdi festas, natais, aniversários - eventualidade que é possível ocorrer em minha profissão. 
Já chorei de solidão olhando para o Lago Maggiore, já sorri de emoção olhando o mesmo lugar.
Estive em lugares que, imagino, em uma profissão regular, não teria a oportunidade de conhecer. Fui levada e trazida tantas vezes que não faço ideia da quilometragem que percorri. Levei e trouxe tantas pessoas, que também não contabilizaria esse número em bom dias e obrigados que distribuí.
Nesses vinte anos voando por aí, ainda sinto paixão e, pasmem, um friozinho na barriga, a cada início de jornada. Ainda vibro com todas as belas atitudes que vejo, e percebo todas e as guardo comigo e as tento distribuir. 
Ainda sou grata por tantos ensinamentos, e por tantas boas pessoas que cruzam meu caminho; `aquelas que ensinaram-me a ter asas e `as que impulsionam-me a voar mais alto.
Hoje, no dia que comemoro 20 anos de aviação, agradeço fazendo menção à carreira de administradora que não tive:
o balanço desses últimos anos é uma infinidade de conhecimento porque estive perto de pessoas incríveis, que me ensinaram, acolheram, guiaram ou mudaram (de alguma forma) a pessoa que sou. 
Hoje é dia de pagamento. Hoje é dia do meu pagamento. Gostaria de pagá-los em agradecimento, e ainda agradecer a todos que proporcionaram meu melhor salário.
E preciso enfatizar que meu melhor salário não veio em cifras em minha conta bancária, mas no prazer em conhecer tantas pessoas incríveis -sejam passageiros ou tripulantes- e  na emoção que vivo em ter acertado em abraçar essa profissão.


Creditos fotográficos: Daniela Petrucci www.danielapetrucci.com

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Hoje eu chorei você



Hoje eu falei de você e me emocionei.
Contei a nossa história 
e tudo o que  aconteceu.
Mas a emoção se deu por conta daquilo que eu não sei, 
em verdade eu chorei, 
mas chorei pouco, chorei contido.
Uma lágrima caiu 
e foi embora junto com tudo aquilo 
que eu não sei como aconteceu.
Chorei e sequei essa(s) lágrima(s) teimosa(s), 
afinal, apareceu mais do que uma,
em ambos os olhos, 
e eu as secava antes delas escorrerem 
porque eu não queria borrar a minha maquiagem 
ou borrar a minha vaidade que
 - ao final das contas - 
foi o que me separou de você.
Em tanto tempo já passado, você doeu. 
Doeu na narração bonita de uma história 
picada entre algumas idas e vindas, 
tão cheia de amor e em mesmo tanto desencontro, 
que eu não sei o que dói mais: 
Não sei se dói não ter você 
ou se dói saber que sou culpada em não te ter.
Eu sei que essa teimosia, 
- seja da lágrima ou da decisão - 
mexeu comigo em emoção esvaída 
em conversa informal 
de quem desesperadamente não mente mais para si 
tentando omitir ou esquecer.
Também sei que não teve mentira, 
e que nossa história conteve muito sentimento. 
Mas também não teve o atrevimento
- que teria sido imprescindível -
para fazer essa história permanecer.
Tem ainda muita vaidade, 
alguma imaturidade 
e é cheia de intolerância por parte de quem está no comando,
mas esse papel é alternado, 
ora por mim, ora por você, 
e ambos sabemos o que queremos,
só não queremos mesmo é perder: 
seja a liderança, seja a esperança ou intemperança.
Hoje eu chorei você, hoje eu enxuguei você. 
Hoje eu chorei por mim, hoje eu chorei por você, 
e fiquei assim, exatamente onde estava, 
sem saber o que fazer. 
O que sei é que fiquei sozinha, 
com uma decisão talvez equivocada, 
com a  maquiagem um pouco borrada, 
a alma um tanto amarrotada 
e uma vontade gigante dessa história estar inteira errada 

e voltar a acontecer.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Nesta sua viagem

Você disse que sente muito, 
mas a verdade toda dessa história 
é que você mal sabe o que é sentir.
Você compara toda história com uma viagem, 
e sendo uma viagem, 
todo mundo tem seu bagagem.
E dentro de tanta falta, 
o que não falta é seu preenchimento vazio.
Espaço vago de quem justifica suas ausências, 
com bagagem repleta de lacunas.
E qualquer provimento em viagem 
tão cheia de hiatos 
pode gerar incomodo fardo.
Peso de quem não conhece o que é bagagem.
Só sabe o que é uma viagem sem rumo - de fato.
Trajeto com paradas aleatórias e desordenadas.
Percurso estabelecido por destino fingido conhecido 
ou por escancarada imperícia de emancipação exagerada.
Ressentimentos de quem
- em percurso habitual -  
transporta consigo passageiros eventuais,
como eu mesma fui.
Essa não foi minha primeira errada viagem, 
mas pensei por algum instante, 
que tamanho discurso sobre intensidade 
tivesse aquela premissa dos verdadeiros viajantes. 
De quem desbrava, que é audaz 
e cheio de coragem.
Mas, ao contrário, 
é tanto vazio em uma só bagagem,
tanta evasão em tão curta parada 
tanta falta em demasia,
tanto desapego em algum afeto,
tão pouco afeto em qualquer entusiasmo,
que qualquer viagem 
em qualquer velocidade
se torna apenas mais uma paragem
sem bagagem ou envolvimento,
e nessa história o que tem de sentimento é
- justamente - a falta de algum.