sábado, 14 de outubro de 2017

Esse amor moderno

Por favor, me deixe te amar
Não faça mais assim
esse jeito que empurra
que repele
que espanta.
Meu amor é tão grande…
e amor desse tamanho
faz sofrer se não for dividido
faz diminuir se não for sentido
faz arder se for reprimido.
Deixe-me aproximar
deixe-me te abraçar
deixe-me te proteger
deixe-me te ensinar.
Eu sei que - `as vezes - tudo é dolorido,
mas tudo que é contido
fica maior, mais latente
faz a gente impotente
faz barulho onde deveria haver sossego,
onde deveria haver abrigo.
Por favor, me permita transbordar
e te trazer comigo
deixe-te sentir infinito
eu te levo (prometo) 
e me levo contigo.
Mas preciso que você consinta 
preciso que você também sinta
Preciso do seu sorriso
do seu empenho
preciso que desperte 
preciso que me aqueça
preciso que  floresça.
Preciso que cresça grande
e não aos pedaços, como tantos outros…
isso me mataria aos poucos
como já têm matado
um veneno de ver ao meu lado
quem aceita esse tamanho.
Por favor, me ame grande
me mostre,
me convença
que você realmente compreende
que você quer
que você também sente.
E vamos voar infinito
um amor eterno e esquisito
que é esse amor
fraterno
moderno 

e aflito.

sábado, 7 de outubro de 2017

O abraço e seus herdeiros


Sou comissária de voo, isso alguns já sabem... Mas pode ser que não saibam que, durante muitos anos, fui casada com um também comissário de voo, meu parceiro por doze completos anos, pai biológico das minhas filhas e pai adotivo do meu mais velho.
Nosso casamento não era regado de carinho. Meu ex marido, apesar da idoneidade,  culturalmente não era um homem que se preocupava com demonstrações afetivas. Mas tínhamos lá nossos momentos, e claro, não vivíamos um relacionamento frio e distante.
Nosso trabalho em si  foi um facilitador neste aspecto, porque nossas escalas eram distintas e a separação nos trazia sempre um pouco de saudade. 
Com o passar dos anos, passamos a compor a equipe de voos internacionais, que nos afastava ainda mais em território e calendário.  Os voos internacionais são operados com aeronaves enormes, que têm capacidade para um grande número de passageiros, variando entre 230 a 380 almas em voos de 8 a 12 horas consecutivas, fechados em um charuto metálico, a voar pelos céus  do mundo.
Um dia, em um desses retornos saudosos,  um abraço fez- me entender de vez uma suspeita desagradável: chegávamos mau cheirosos. Claro, não há ser humano ou desodorantes (e higienes) suficientes que se mantenham por uma carga de trabalho superior a quinze horas. Mas a minha suspeita se concretizou com outro fator: são os odores todos, de todas as pessoas confinadas naquele charuto, qual fazem essa essência desagradável que impregna nossas vestes e corpos. Chegamos de um voo longo, cheirando aos hálitos, chulés e tudo o mais que compõe a degradação que nós, seres humanos, naturalmente sofremos. 
Pois bem, explicada até que delicadamente, uma parte nada agradável para qualquer pessoa que ocupar uma aeronave por longas horas viverá (aposto que você não havia reparado nisso, não?), para finalmente, chegar ao ponto dessa crônica.
Percebida essa desventura, parei de abraçar meu marido em sua chegada. E ele, à mim. Nos acostumamos com esse não ato, e não foi essa falta de abraço qual culminou a separação que aconteceu tempos depois dessa descoberta.
E o ato do não abraço se estendeu a todos meus familiares.
Porém, fui presenteada com uma filha tremendamente sagaz e sem melindres para questionar e entender fatos. 
Um dia, ela me perguntou: "- Mãe, por quê quando você chega do trabalho você não me abraça? Você me abraça o tempo todo, menos quando você chega de voo."
E eu, na racionalidade da situação, expliquei pela minha lógica pré definida, que meu abraço não era agradável pelos motivos todos já citados.
Ela afirmou: "- Eu gosto do cheiro que você chega"
E eu, indignada: "- Gosta? Como assim gosta, se eu chego fedida?"
E ela responde: "- Porque é o cheiro de que você voltou."
...
O meu cheiro de chegada, até então tinha um sentido: o trabalho terminado, o esforço produzido, a jornada findada. A partir desse dia, o cheiro passou a representar  o cheiro do retorno, cheiro da chegada, cheiro da melhor parte da vida.
Precisei de uma menina, na época com sete anos, para me explicar, com uma analogia sem racionalidade alguma, que aquele cheiro não tinha nada de mau cheiroso, e deveria ser regado de um abraço de quem, após dias, retorna para casa, para viver a parte mais importante da vida. 
Repensei quantos abraços foram desperdiçados, quantas expectativas para minha filha não atingidas, porque o meu fundamento adulto fazia  uma associação preconceituosa. Imaginei quantas vezes ela desejou ser abraçada e eu, a presenteei com uma chegada fria e racional. Pensei em quantas vezes eu fiz com ela, aquilo que me queixava da cultura do outro: de alguma frieza, de pouco toque, de carinho escasso.
Pensei que, como eu, outras tantas pessoas mudam seus jeitos, seja por achismos ou por certezas, transformando aqueles que nos rodeiam... E nós, vamos nos acostumando com a falta, com a ausência, com o desdém. 
Acostuma quem não oferece, e acostuma quem não recebe, e o mundo vai ficando mais frio, mais polido, mais politicamente correto, sem demonstrações , sem afeto de fato. 
Refleti em quantas ausências não foram recompensadas por um longo abraço só porque eu acreditava fazer o certo, sem sequer perceber qual era a espera da pequena (e dos demais). Pior: quantos abraços saudosos eu havia perdido, quais são, em minha opinião, abraços valiosos, cheios de uma substância que poucos laços contém... A verdade de um sentimento.
Ainda faço voos internacionais, e pelo acaso de horários, muitas vezes não consigo abraçar aos meus filhos em minha chegada, porque eles têm compromissos e nos desencontramos. Muitas vezes, sou eu quem sente a falta do abraço apertado. 
E espero, com toda minha verdade, que nenhum dia da vida dos meus, eles deixem de me abraçar porque pensem que seja a melhor decisão a fazer, por conveniência ou por constrangimento.
Porque abraços não podem ser desperdiçados. 
Abraços não podem ser adiados. 
Porque abraços não dados, são abraços perdidos. 
E sentimento passado altera o sentimento futuro. 
Cuidemos de nossos abraços e de seus herdeiros. 



sábado, 16 de setembro de 2017

No caixa

Sim, eu te vi
mas tive que fingir que não.
Afinal, essa nossa curta história 
foi recheada de fingimento 
mas todos com o consentimento 
da tola que sou.

Mas a parte boa
desse ocasional encontro
foi o seu comportamento
que enfatiza a decisão 
em te dizer não
por nenhum engajamento

Confesso ter ficado curiosa
sobre os  seus pensamentos 
em encontro inesperado,
porque nos meus somente havia
a percepção da mudez 
e do silêncio 
qual convívio tão estável
fazem moradia.

E de súbito momento,
não houve culpa ou arrependimento.
Afinal,  não há pecado
encontrar sem anúncio  
ou compromisso prévio 
no caixa do mercado.