sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Cápsula do tempo



Me perguntaram se saudade é bom ou ruim.
Respondi que saudade é sempre bom.
Saudade é amor e boa lembrança.
E nesses dois itens bons, não tem como haver sentimento ruim.

Saudade é capsula do tempo.
É aquele momento que, por alguns instantes, você volta em tempo remoto. 
Seus olhos se fecham e seu coração aperta: quando teu corpo te desobedece e o pensamento viaja longe. 
Você volta para um instante ou para um tempo que gostaria de ter pausado a vida e encostado por lá por um período longo. Onde você sentiu-se em colo quente, abraço apertado e aconchego justo. Onde seu coração parou de doer e bateu seus compassos ritmados e a vida te mostrou que havia sentido em tudo. Onde sua alma clareou seus olhos e o ar encheu seu pulmão com ar fácil, leve. Onde a vida te presenteou com suspiros e oxigênio extra. Em qualquer lugar, momento ou pessoa, onde tudo pareceu que daria certo, que haveria sentido em tanta perda anterior e haveria esperança em outras novas conquistas.

Quando sente-se saudade, o coração fica apertado, imitando um recipiente plástico que alguém pressiona e derrama o conteúdo.
Saudade é assim: é amor extravasado do coração em forma de lembrança.

Saudade não é um problema, e está longe de ser ruim.
Problema é a distancia que causa saudade. 
Ruim é o melindre ou o medo que fazem saudade.
Mas a saudade em si… ahhhh não… a saudade não é ruim.
A saudade é amor, em sua plenitude de insubordinação, que desobedece o sossego do dia-a-dia e recorda, com toda força possível onde houve tempo que foi permitido juntar amor, vontade, proteção e desejo.

Saudade é a única forma de voltar no tempo.
Uma forma de voltar num tempo bom.






sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Um menino na praia

Uma criança na praia.
Em muitas situações, seria apenas mais uma foto, de mais uma criança, em um dia de praia.
Mas essa não. Essa foto não tem uma criança brincando. Não tem bola, nem família ou alegria.
Nessa foto, apesar da mudez de toda fotografia, e mesmo sem sangue algum, tem o horror e o desespero de um mundo que imigra exasperado à procura de esperança de vida.

E essa imagem se espalha pelo mundo, agora com ilustradores  com criatividade em alta, sugerindo outras cenas, para que em nosso consciente, quem sabe, fique alguma coisa positiva, no meio dessa desgraça toda. 

É uma imagem triste, em meio a tantas outras imagens que temos do pandemônio do mundo. Mas sempre há alguém para registrar a imagem. 
Imagino que, naquela situação, não teria como o fotógrafo auxiliar com algum tipo de resgate, mas já presenciei cena qual as pessoas fotografam, filmam ou prostram-se pasmas, enquanto quem precisa de ajuda, permanece pedindo socorro, sem ser atendido.

A imagem do menino morto com o rosto na areia é angustiante, mas, mais lamentável é a cena de quem vê paralisado momentos como esse, todos os dias, e nada faz para mudá-lo.
E essa mudança, não precisa acontecer de forma macro, porque o ser humano tem mania de abster-se de culpa, imaginando nada fazer para mudar um todo. Não podemos mudar de forma generalizada mesmo, porque a mudança é individual.

A forma de sair do caos que nos encontramos é estudando muito, lendo muito e sendo um pouco menos egoístas. 
Aperfeiçoando nossos conhecimentos e sendo mais gentis com o mundo em geral. 
A começar pela nossa casa: em nossa família, ouvindo aos nossos filhos, pais ou cônjuge… dando conselho, sendo ouvidos e olhando nos olhos. Saindo mais desse mundo virtual e tendo mais contato humano.
Sendo mais gentis com aqueles que participam de nossas vidas: com o funcionário, com o prestador de serviços, com quem passa na rua.
Com menos ferocidade no trânsito, com mais afabilidade com colegas de trabalho, com mais cortesia no restaurante, mais civilidade nos serviços comprados.

Queremos menos guerra para um mundo inteiro, mas não paramos na faixa para o pedestre atravessar.
Queremos menos imagens de violência, mas damos audiência a programas que incitam o que é negativo.
Queremos um futuro melhor, mas presenteamos nossos filhos para compensar nossa ausência.
Queremos ser bem tratados, mas não temos a delicadeza de dar bom dia.

A criança na praia da Turquia é um reflexo do mundo que vivemos:
estamos estupefatos apontando o erro dos outros, impressionados com a violência, perplexos com as mortes.

E atônitos, assistindo a tudo, mas achando que somos perfeitos.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Não, obrigada


Não, obrigada.
Não quero mais ser assaltada.
Não aceito ser violada em minha intimidade.
Não permito mais que se aproximem e roubem meu melhor: que diminuam meu sorriso, meu bem estar ou minha quietude.
Não consinto que levem meu sossego embora ou alvorocem minha paz interior.
Não autorizo que amarelem a minha alma, que meu coração descompasse esquizofrênico, ou que o frio na barriga seja por medo ou pavor.
Não quero mais sabores amargos, pensamentos latentes ou respiração rasa.
Não carrego mais pedras que não sejam minhas, não levo nas costas peso que não seja meu.
Não serei mais bengala, apoio ou muleta de quem só chega para recarregar-se e vai embora como se não tivesse sequer passado por aqui.
Não quero quem aparece de vez em nunca e descarrega um caminhão de lixo, como se eu não tivesse o meu próprio para desovar.
Não quero próximo, nem por um segundo, quem abraça falso, quem profere palavras vagas e frias, quem não tem amor pra dar. 
Não quero junto quem não tenha amor ou não saiba o que é amar.
Não, obrigada.

Não quero mais problema de quem apenas tem problemas para dar.