sábado, 14 de novembro de 2015

Por favor, esconda meu tablet.

Fui presenteada com uma cópia em DVD de umas memórias de infância.
Nela, alguns vídeos feitos em casa, onde nós, os três irmãos, mais alguns amigos e vizinhos, reproduzíamos filmes, como Romeu e Julieta, Star Wars e Indiana Jones. Tudo apenas com muita criatividade e uma câmera, coisas da infância de crianças que têm pais que trabalham (e aprontam enquanto eles estão longe).

Minhas filhas  adoraram o tal vídeo e a Mel o reproduz com frequência. Até que, um dia, ela chega chorando e pedindo: “por favor, esconda meu tablet de mim! Eu não quero mais usar!”
Uma investigação bem rápida já detecta o problema: “Eu quero ter a infância que você teve. Você brincavam o dia todo e a gente só fica mexendo em computador.” Ela ainda disse mais um monte de frases tristes, que apontaram a escravidão da internet, a falta de amigos não virtuais e claro, a necessidade daquela alegria que mostramos nos filmes.

Tive que começar explicando que nem tudo eram flores: nós não ríamos o tempo todo e o ócio era presente em muitos dias. Pedi para que ela prestasse atenção em algumas partes pontuais, onde claramente, havia discussão e briga. Falei da dificuldade e das besteiras que fazíamos. Tive que explicar que o tablet não tem culpa, mesmo porque, ele faria a vez da câmera (como tantas vezes faz nos pequenos vídeos que ela e a irmã tem gravado). Ele quem traz o acesso que hoje se faz necessário, e que talvez, a maior dificuldade hoje fosse não ter vizinhos próximos da idade para brincar, como eu e meus irmãos tivemos. Sugeri que a visita de amigas fosse mais frequente. Ela foi se acalmando com a conversa (que aconteceu depois disso mais umas duas vezes), mas a Mel, por si, decidiu diminuir seu acesso à internet (o que, em casa, é estipulado apenas uma hora por dia, após todas as tarefas imprescindíveis serem realizadas).

E nós confabulamos coisas sobre o tal vídeo, minha infância, e a própria internet…
Me instigava elas gostarem tanto assim daquele vídeo caseiro. E ainda, especificamente de uma filmagem, que a mim incomoda muito: me sinto uma idiota. Elas adoram e explicaram depois: “a gente gosta porque você está muito divertida”. E eu tive que entender, que a idade e as brincadeiras feitas, são correspondentes às delas hoje. Elas se identificam.
Exploramos o fato que a infância delas, não têm como caber na minha. Estamos falando de quase trinta anos de diferença, e esses anos fazem diferença sim: o mundo é outro, as pessoas são outras. O comportamento mudou, o individualismo aumentou, as árvores diminuíram em quantidade e o fluxo de trânsito é 10 vezes maior: não dá mais pra subir num pé de jabuticaba,  brincar na rua de taco... A jabuticabeira do meu quintal não tem nem um metro de altura, e está em vaso… isso porque, ainda tenho uma! Apesar da casa ser a mesma daquela minha pouca idade, os vizinhos, quase todos, não são. As pessoas mal se falam, quando muito um cumprimento rápido. E seus filhos estão em seus tablets, ou fazendo os muitos cursos extras que o mundo exige de uma criança. Afinal, temos que ser adultos preparados para esse mundo, não?
A infância de meus filhos é diferente do que foi a minha,  assim como a minha foi diferente da de minha mãe, e por aí afora. Fomos perdendo contato com a terra, com os animais e com as pessoas. Temos acesso ao mundo inteiro em uma tela, mas estamos aprisionados na necessidade da atualização imediata, enquanto o que tínhamos de mais adequado (o contato pessoal), perde-se em apenas cliques virtuais.
Perdemos uma parte do nosso precioso tempo, ou seja, dos nossos minutos de vida, precisando saber o que acontece do outro lado do mundo, sem saber o que se passa com a pessoa que está ao lado. E precisamos usar alternativas e criatividade para ter acesso à natureza.

“A internet tem suas vantagens”, eu expliquei para a Mel, “hoje, se você tem uma dúvida, com uma pesquisa rápida, você encontra sua resposta. Na minha infância, precisava ir à biblioteca e abrir livros gigantes para tentar encontrar uma pesquisa”. 
Não penso que nenhuma das alternativas seja excelente: minha sugestão foi usar a internet para otimizar o tempo e então, desfrutar do tempo livre com um bom livro.

A Mel comprou a ideia. A Julia já tinha comprado e o Leo também é usuário. A internet não pode nos aprisionar, não deve ser uma premissa. Ela é uma ferramenta! E nós, precisamos aprender a usar. 
O ideal é usar a tela para atualizar-se, mas ter um vida, uma vida real mesmo, com amigos, conversa fiada e conversa séria, família unida e jantares, abraços e beijos de verdade.

A Mel entendeu algumas outras coisas: a grama do vizinho parece sempre ser mais verde. Mas a vida não é bem assim. Precisamos valorizar o nosso. Cada um sabe quanto preço se paga para ter o que tem: família, amor e amigos. Isso tudo despende trabalho árduo. 

E eu, fiquei com uma vontade danada de voltar a ser aquela menina de cabelos volumosos e olhos grandes, qual aparece na filmagem do DVD. 
Deixei de ver a menina que era como uma idiota. E minhas filhas me mostraram que estou levando a vida muito à sério. 

Preciso também esconder. Preciso aprender a esconder (de vez em quando) um adulto e voltar a ser mais divertida. ;)


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