Eu já sabia que isso iria acontecer.
De qualquer forma, isso já vem acontecendo há tempos. Aos poucos. Lentamente...
Só não sabia que o final seria assim, exatamente assim: me olhando no espelho, me sentindo forte o suficiente para apertar o gatilho. E sem um pingo de duvida sobre o que tenho que fazer.
Sabia, quando você me olhou, naquela conversa informal e me deu seus contatos.
Sabia, quando você me mandou mensagens, quando se aproximou devagar.
Sabia, enquanto você me mandava músicas e depois, flores.
Eu já entendia tudo quando você disse que aquele seu casamento estava acabado. Era claro que não estava, desde quando o que está acabado ainda existe?
Sabia, quando você fazia malabarismos para me encontrar escondido.
Sabia, quando você atendia telefonemas em outro ambiente.
Quando você não me atendia ou não respondia.
Quando você sussurrava, ou dizia ter inventado lugares para passear só para me telefonar.
Sabia, quando você falava com ela, chamando por apelidos.
Sabia, quando falada dos seus filhos.
Eu sabia que eu terminaria assim.
Sabia que você só me usava, mas você me convencia com a clareza de um bom político, que era a mim que você queria.
Sabia do seu lado não tão nobre, mas ouvia com ouvidos de quem é querida pela primeira vez, que era você quem aceitava meus defeitos.
Sabia que você ganhava em mim mais vida.
Eu sabia também que você tinha em mim uma puta barata.
E eu, mesmo assim, com toda a inocência que uma amante pode ter, eu acreditei em você.
Acreditei que você voltaria. Acreditei que ficaria. Acreditei que eu era mais importante que ela. Acreditei nos seus olhos. Acreditei na sua leitura.
E tudo que eu sabia, antes da inocência escura da amante burra, aconteceu.
Você foi. E me levou.
Me levou embora. Levou meus instintos primários. Levou a minha confiança no mundo.
Você levou o melhor que eu tinha de mim.
Sobrou um resto.
Resto que já tentei apagar.
Tentei apagar com veneno, mas a lavagem gástrica foi mais forte. E só ficou meu estômago pobre, para somar com os restos de corpo que tenho, depois de tanto tempo sem dormir, nem comer, nem viver.
Mas hoje eu consegui. E você venceu. Você estava certo.
Você disse que eu era a mais forte que você conhecia.
E eu sei que sou.
Sou forte suficiente para terminar o que já começou.
Só não sabia que terminaria assim: olhando nos meus olhos. E com este cano gelado em minha boca.
Texto produzido para a Peça Teatral Casa de Retalhos de Marcio Azevedo
segunda-feira, 31 de março de 2014
quinta-feira, 27 de março de 2014
O que ela tem de diferente?
Sabe o que ela tem de diferente?
Muito.
Quase tudo.
Quase tudo nela, você nunca tinha visto em alguém. Não assim: não em conjunto, tudo junto e misturado, numa combinação deliciosa de se ver (e viver).
A começar pelo seu coração que vibra. Porque o coração dela está a frente de qualquer ação que ela tome. Da mais convencional, até a mais intelectual.
Ela é sensível, percebe tudo ao redor. Ela sorri quando uma rufada de vento toca seu rosto. E fecha os olhos...
Ela é capaz de carregar em si aquela brisa fresca que nos acolhe num dia de calor. Mas também sabe ser aquela ventania que leva todas as folhas secas embora.
Ela vê beleza em pequenas coisas, em tudo que participa.
Um raio de sol a inspira, como o luar também. O orvalho, a tempestade: quem faz seu dia bonito é sua energia própria.
Ela tem luz. Luz que irradia e ilumina. Ela faz qualquer ambiente mais feliz.
E quando está triste, ela consegue suspirar e encher o pulmão de esperança até quando este está raso por alguma dor.
Ela chora, chora sempre. Porque a emoção é sempre maior. E ela extravasa em um líquido salgado e quente. Combinação tão interessante quanto a intensidade do seu sofrer.
Ela já viveu tristezas. Tristezas gigantes devido ao seu envolvimento com tudo. Ela já viveu tristezas alheias. Mas a diferença, é que nela, as marcas são como degraus: servem para alcançar patamar de conhecimento. São cicatrizes bem fechadas, quase invisíveis.
Ela dança... dança sozinha, dança livre... Ela tem tanta graça em si: quando caminha é como se dançasse para o mundo. E as pessoas percebem quando ela passa.
Canta também. Onde pode. Sempre que pode e tem vontade. Mas a ela, encanta ver aos outros cantar: ela sabe que quando alguém canta é porque a felicidade está plena, e ela se sente feliz também.
Em sua alma vivem fadas: fadas que voam libertas quando ela dá aquele seu grande sorriso.
Quando gargalha, ela exorciza todos seus medos, e fica nova como que renascida.
Ela fala com plantas. Conversa com animais. E eles respondem: conseguem entender a alegria que existe dentro dela.
Ela consegue voar, em seus sonhos e nos dos outros, com a mesma facilidade que mantém os pés no chão quando é necessário.
Ela é forte dentro de toda fragilidade feminina: ela é pau pra toda obra. Ela aceita desafios. Ela participa. Se precisar, ela te puxa. Se precisar, ela te alcança: se você bobear ela te passa.
Ela sabe renascer, refazer histórias, recomeçar de qualquer ponto. Está sempre pronta para escrever um novo livro.
Ela é encantadora na forma de falar. É flexível. Ela é sensível e charmosa. Ao mesmo tempo, debochada e de opinião firme. Sensata e sensitiva.
Ela ri da própria desgraça. E toca em frente.
Pensa rápido e tem todas as respostas. Ela é sabia, mas não se considera: está em busca de conhecimento vorazmente.
Ela tem monstros e luta contra eles, com ânsia de quem compete contra a vida, contra o tempo: porque ela não pode perder tempo de jeito algum.
Ela tem muito de diferente.
Ela é única e exclusiva, porque tem todas as mulheres em uma mulher só.
terça-feira, 25 de março de 2014
Somos todos iguais
Quando se olha de fora para dentro da vida dos outros, tudo parece tão bem resolvido.
A impressão que temos é de que na vida das outras pessoas as coisas se revolvem melhor, com outras fórmulas, ou melhor, com fórmulas que não possuímos.
Nos parece que aos outros as tristezas são menos doloridas, as doenças menos sofridas, a infelicidade mais passageira, a alegria mais tenra, o sucesso sempre a postos.
Não sabemos quais são as lutas dos outros seres humanos. Não sabemos quantas lágrimas rolam escondidas embaixo do dinheiro, sorrisos e teto dos outros.
Todos nós travamos batalhas diárias, afinal, não somos celestiais.
E somente no nosso silêncio, conseguimos perceber quem somos. Quando se está deitado, cabeça no travesseiro, olhos cerrados e monstros adormecidos: nesta hora, você sabe o que quer, de verdade. É nessa hora que a criança interna grita a sua grande vontade e você escuta com um eco infinito.
Nesta hora, somos todos iguais. Todos em pensamentos nus, despidos de nossos pudores, sozinhos em nossas guerras privadas.
Nesta hora, poderíamos parar com aquele egoísmo inato, deixar o umbiguismo de lado e lembrar que ao outro, aquele em que a grama parece mais verde, que a vida parece mais bela, os problemas parecem diminutos... Esse outro, nesta mesma hora, sente- se tão impotente quanto você. E como você, muitas vezes, faz força sobrenatural para abrir os olhos e enfrentar o mundo, que tantas vezes apresenta mais alegria do você tem em si.
Somos todos iguais. Em carnes diferentes.
A impressão que temos é de que na vida das outras pessoas as coisas se revolvem melhor, com outras fórmulas, ou melhor, com fórmulas que não possuímos.
Nos parece que aos outros as tristezas são menos doloridas, as doenças menos sofridas, a infelicidade mais passageira, a alegria mais tenra, o sucesso sempre a postos.
Não sabemos quais são as lutas dos outros seres humanos. Não sabemos quantas lágrimas rolam escondidas embaixo do dinheiro, sorrisos e teto dos outros.
Todos nós travamos batalhas diárias, afinal, não somos celestiais.
E somente no nosso silêncio, conseguimos perceber quem somos. Quando se está deitado, cabeça no travesseiro, olhos cerrados e monstros adormecidos: nesta hora, você sabe o que quer, de verdade. É nessa hora que a criança interna grita a sua grande vontade e você escuta com um eco infinito.
Nesta hora, somos todos iguais. Todos em pensamentos nus, despidos de nossos pudores, sozinhos em nossas guerras privadas.
Nesta hora, poderíamos parar com aquele egoísmo inato, deixar o umbiguismo de lado e lembrar que ao outro, aquele em que a grama parece mais verde, que a vida parece mais bela, os problemas parecem diminutos... Esse outro, nesta mesma hora, sente- se tão impotente quanto você. E como você, muitas vezes, faz força sobrenatural para abrir os olhos e enfrentar o mundo, que tantas vezes apresenta mais alegria do você tem em si.
Somos todos iguais. Em carnes diferentes.
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