sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Nossos sentidos



Nossos sentidos foram alguns vividos
o que é carne, já foi lascivo
o que é família, já foi pudico
mas o que é amor, ainda é repreendido

Justo nós que somos tão bem resolvidos
mantemos esses sentimentos furtivos
revoltos porém contidos
porque em nós há algum abrigo

Na verdade, é quase um esconderijo
de muro alto e escorregadiço
que camuflam as dores de algum desperdício
dos amores cansados, ultrapassados 
amassados, espezinhados, quebradiços

Talvez esses amores tenham sido
os dissabores cansativos
daqueles que amam em compulsivo
e um dia se cansam, lamentam e condenam 
e tornam - todo - o novo proibido

Deve ser nossa sina, assim imagino
já que tamanhos recalques não são coibidos
e dessa forma seguimos sozinhos 
porém não esquecidos

Já que tamanha memória nos tem consentido
relances e espasmos de dias seguidos
dias de amor, de carinho e abraço passivo
ou  das palavras duras e de amor corrosivo.

E apesar de tudo que foi descrito
O sentido por você, 
para mim não está definido.
E o que é sentido por mim,
para você não faz sentido.





terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A coragem que lhe faltava



Ela estava cansada
Cansada de tanto caminho
de tanta pedra
de tanta torre 
de tanta carta
de tanta promessa
e tanta aproximação vaga. 
Até de passarinho, ela se cansava
quando algum insistia em altura 
e no alto da torre voava. 
Ela se cansava de tanto silêncio
e de tanto barulho
dentro daquele abrigo
que a voz do monstro alcançava.
Daquelas muitas noites
ela estava cansada 
e de tantas estrelas escondidas 
atrás de nuvens pesadas. 
Cansada ela ficava 
das horas vagas da madrugada 
dos clarões e de espaços nulos
da hora que não passava 
Ela estava cansada das canções
que sozinha cantava
ela estava cansada
e lá somente estava
porque coragem lhe faltava
(como o amor que ali não chegava)
Faltava a coragem de quem voava
e de súbito anulava 
tormento aquele qual o chão alcançava 
E do alto ela esperava
dia que a coragem, ela pensava, 
em apenas um salto
tudo apagava. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

E você? Sente o quê?

Sabe, gente...
A gente nunca sabe o que o outro carrega consigo. A gente não é capaz de,  em uma conversa, em uma história, em uma sessão de terapia conhecer alguém. 
A gente NUNCA, nunquinha vai ler o livro do outro como ele escreveu, de fato. O papel não era nosso, nem a caneta, nem a tinta. 
A gente sempre vai ler com os olhos que a vida deu, com a bagagem e a experiência que têm. Com o alfabeto que aprendeu. 
Somos todos seres errantes, flutuantes, viajantes, navegantes, sei lá. 
Somos todos almas etéreas presas obrigatoriamente em corpos que cortam, e egos que ferem ainda mais. 
Tudo isso para dizer que é preciso ter respeito demais com a história do outro, e reforçar que quando alguém conta o que sente, a gente precisa é aprender a apenas ouvir, ouvir com o coração e não com uma interpretação imediatista e egocêntrica. 
O mundo já está cheio demais de gente que é dono da verdade e cheio de razão. De gente que errou pra caramba, mas precisa apontar o erro no outro para o dele diminuir. Gente que ouve uma história e imediatamente começa a contar a sua, fazendo daquele que procura ajuda, apenas expectador. Gente que tem uma vida oca e precisa danificar a vida do outro para trazer algum movimento à sua.
A gente precisa urgentemente aprender a ouvir e a silenciar uma vontade louca de ser mais, melhor ou saber muito.
A gente precisa urgentemente aprender a ouvir e ponto. 
E, de repente, quem sabe, aprender a ter compaixão de verdade. 
Porque a compaixão é você identificar aquilo que o outro sente como sendo seu. 
Mas... mais uma vez: é preciso entender demais sobre sentimentos para poder entender ao outro. Porque só sentindo muito e sentindo profundamente a muitos sentimentos é que a gente consegue ler o livro de alguém e tornar esse livro tão importante quando aquele que a gente mesmo escreve. 
Normalmente, um bom leitor já deu umas topadas na vida. Já caiu, já ralou e continuou a caminhar mesmo
mancando. 
Esse cara é aquele que já perdeu um monte e aprendeu a ler aos outros, com o respeito que o outro merece. 

Para ser um bom leitor, é preciso ter “sacudido a poeira e dado a volta por cima” tantas vezes e a ponto de, quando ler ao outro, entender que nem tudo é ponte para felicidade, que todos têm seus dias difíceis. Que nem sempre sofrer é autopiedade. E que ouvir, além de tudo, é aprender com o outro, sem precisar aparecer.

É isso, minha gente. Um bom leitor (ou bom ouvinte) é aquele de sente. E sentir, nem todo mundo sabe. 

E você? Sente o quê?