terça-feira, 10 de abril de 2018

Do mar, amante


Conversava com um moço bem bonito
que tem o defeito de somente amar ao mar
- para as meninas desinformadas,
esses, não sabem amar -.

Porque um moço que com o mar no peito vive
no turbilhão da água, mora
e a mulher que o excita
é uma sereia, dizem, 
e ela o ignora.

É uma pena, bonito moço,
que nos braços fantasiosos de uma suposta sereia
sejam jogados tantos sentimentos seus. 
Comparado com esses,
qual a pequenês dos beijos meus?

O maior problema do amante do mar
é que do mar apenas 
que vêm seus amores
e eu… tentando me aproximar
e ele… não parece me dar lugar.

Mas ao contrário do que suponha, moço
em terra firme, eu te afirmo,
há amor, acalanto infinito
porque em meus braços não há inconstância das ondas
mas sim a imensidão na qual habito.

E se ainda assim, o do mar amante
indeciso for para escolher,
possivelmente porque nunca 
conheceu o que é mergulhar nos braços 
de uma verdadeira mulher.



terça-feira, 27 de março de 2018

De Márcio, a cadeira

Sob a cadeira
poesia de uma vida inteira 

Em uma caixa de papel grosso
Pedaços de impressos soltos
Contêm  as letras de mãos unidas
Dançando na revoada
Do poeta, as ideias soltas 

Sob a cadeira de madeira
Poesia de uma vida inteira

Entalhadas em folha pautada
Entre tintas e garranchos
Os sonhos e solavancos
De quem, de amor, fingindo sofre
Ou sofre, verdadeiramente amando

Sob a cadeira de madeira inteira
Poesia de um vida e meia

E há quem saiba que nessa caixa
Tem mais experiência do que invento
Além daquele - do próprio poeta -
Quando finge conhecido tormento?

Sob a cadeira de uma vida inteira
Poesia de qualquer maneira

E nesse escritório considerado
Nesse nada enfadado arquivo
Exprimem-se dores, amores, cores
Dos tantos sentimentos já sentidos

Sob a cadeira de qualquer maneira
Poesia meia ou poesia inteira

Nesse tanto, papel riscado
Criativo sonho arquivado
Representa um fado ou teatro 
Quando da caixa tirado

Sob uma vida inteira
Poesia encaixa ligeira

Porque tudo que nasce 
De tal poeta 
Exprime amor retratado
E tanta vida, tanto poema
Não deve ficar guardado 

Que saia de sob a cadeira 
Poesia de uma vida inteira

* Homenagem à Márcio Azevedo, homem cuja cadeira oculta precioso arquivo.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Da poesia, o dia

Da poesia, o dia
Do amor, a agonia
De toda dor, heresia 
qual poeta esculpia. 

Porque sem dor, maresia
de torpor e utopia 
qual amor fingiria 
e à francesa, sairia.

Mas qual causa repudia,
se amor não seria
fingir dor e alegria
em conhecida freguesia?

Seja amor ou mania
que a distância silencia
traz à tona poesia
quando do seu tema, 
de amor,
de rancor,
de torpor, 
e de temor se sofria.