domingo, 17 de julho de 2016

A sua maioridade

Querido filho,

Apesar de tanta euforia teórica que uma data como hoje faz em nossas vidas, você verá que, a partir de hoje, será exatamente como foi nos dias anteriores, com uma única diferença: agora, você é quem assina.
A partir de hoje, você está livre para voar, e ganhar seus próprios ares, sem que alguém precise autorizar. Hoje é sua alforria.
Mas também, hoje é o divisor de águas que uma sociedade impôs para que seus direitos sejam exigidos, seus deveres sejam cobrados, seus delitos sejam menos tolerados, suas responsabilidades sejam nada parciais.
Eu não sei te parabenizo por completar essa maioridade, ou se já inicio minhas próprias condolências, mesquinharia de quem sente dó de si mesmo. Porque, como já dito, a partir de hoje, se você quiser ir, você pode, e eu, não poderei te segurar.

Eu não sinto dor nesse sentimento esquisito que desconhecia até há pouco, mas sinto um misto de ansiedade e insegurança, aquela sensação que antecede uma viagem. 
Porém essa viagem não é minha, não mais. Agora, ela é toda sua. Com direito a sua chancela, sua rubrica. Agora, você é o autor de toda linha. É o editor, o corretor, e quem publica. É tudo seu.
A partir de hoje, você está livre da chatice das minha implicâncias, das minhas perguntas, das minhas discordâncias (em teoria). Se você quiser, simplesmente, ignorá-las, você pode.
A partir de hoje, você pode ir e vir, sem pedir, sem suplicar, sem detalhar, porque, diz um papel, você já é dono do seu nariz.
A partir de hoje, você pode ganhar a estrada, deve ter seu trabalho, pode fazer a sua vida, sem a minha autorização.

A partir de hoje, meu filho, você pode tudo, como na grande verdade, você sempre pode, mas se ainda tenho direito de te pedir, nessa mania boba que nós mães temos em querer proteger, eu te peço:
- Seu corpo é seu, mas ele é único. Não deixe meia hora de qualquer coisa ser mais importante do que as outras tantas horas que você tem para viver nele.
- Não pare nunca de querer aprender, ou nunca pense que já sabe o bastante. Uma atrofia cerebral voluntária é deficiência que te impede de conquistar. Assim como o radicalismo.
- Não seja mais ou menos. Analise seus riscos, mas jogue todas as cartas que você puder naquilo que você acreditar. Você pode qualquer coisa que quiser, desde que não desista.
- Ser conhecido é bom, dependendo de como você ganhou fama. Cuide para que a memória das pessoas a seu respeito seja equivalente ao seu caráter.
- Mude de opinião quantas vezes você precisar, até ter flexibilidade suficiente para não se importar com aquilo que não te diz respeito.
- Receba a todos como você gostaria de ser recebido.
- Respeite as mulheres que você se relacionar como você entende que um cara deva respeitar a sua irmã.
E o mais importante: dê quantas voltas pelo mundo que você precisar dar ou puder dar, saiba que aqui você sempre terá colo, sempre terá ouvidos e sempre terá um abraço quente.

A partir de hoje, meu amor, eu sou burocraticamente obrigada a soltar sua mão. Mas isso é só na teoria. Porque, na prática, desejo estar sempre de mãos dadas com você, como quando você aprendeu a andar.

A partir de hoje, você pode ir embora (eu não te impediria), mas desejo, meu filho, que se acaso você for, eu tenha sido competente suficiente nesses últimos 18 anos, para você ter motivos para voltar.


*Homenagem à Leonardo Lazari.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

No dia que te matei






O dia que te matei, eu chorei.
Mas não foi daqueles choros quentes, 
que deformam, que soluçam.
Esse choro eu chorei nos dias todos 
em que me preparei 
para você morrer.

No dia que te matei,
escorreu lágrima oca
de alma que jaze vazia
cheia de angústia.
Não foi choro contido
como tantos os outros sentidos.

No dia que te matei
morreu quem flutuava
em balões coloridos
que levavam para o céu infinito.
E agora só arrasta o látex puído
como correntes em punição.

No dia que eu te matei,
não matei por querer,
mas porque tantas vezes
você pediu para morrer.
Não foi doloso, foi culposo
de quem só

teve culpa por querer.

O dia que te matei,
você não morreu.
Morri só eu.
E passei a ser,
exatamente,
como todos os outros

que tem seus pés no chão.



quinta-feira, 30 de junho de 2016

O tal Português

Só sei que foi há muito tempo.
Está tudo registrado... ele chegou por aqui e resolveu ficar.
Chegou com toda pompa que é característica de um bom europeu. Vestido em veludo, camisa com franjas e jóias... veio reinar mesmo: o português.
Ficou encantado com a beleza desse lugar. Encantou-se com o clima descrito em seu modo mais formal: "(...) a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados (...)."*
E decidiu aportar de vez...

Com o passar dos anos, o português foi se misturando, em todos os sentidos, em todos os gostos, em todos os âmbitos.
Misturou a pele com o índio e virou caboclo, virou mameluco.
E já que já era meio índio, pegou o que já estava aqui para si, mesmo porque, antes de chegar, ele nem os conhecia:
Pegou mania de dormir na rede, de tomar banho todo dia, usar enfeite, se pintar... comeu mandioca, abacaxi... subiu na árvore para colher  pitangacaju. Fugiu da  jararaca e da sucuri. Conheceu a saúva, o tatu e o jabuti. E fez o tupi ser mais europeu.(1)

Em seu reinado, aceitou toda gente, do mundo inteiro que veio aqui também aportar, seja forçosamente ou não. E continuou sua mistura:a pele continuou a colorir, e já se fazia cafuzo, mulato.
E foi descobrindo o quanto  misturar é bom... mas ainda querendo dominar tudo, pega para si o que vem de outras terras e faz como se fosse seu.
Danado esse tal português.

Da África, roubou o quitute, como o feijãoacarajécachaçachuchumugunzáquiabovatapá,  canjica... ainda se tratando de comida, da senzala roubou a feijoada, bem regada no dendê e ainda jura que foi ele mesmo que inventou. Pra comemorar estas aquisições  nada melhor que um samba. Nesse angu todo, aceitou até o candomblé e tem certeza que Iemanjá é filha sua.(2)

Dançando balé roubou tanto jargão, achando chique ter decoração em cabaré com abajur e  buquê. Fez madame usar maquiagem, cachecolbijuteria... virando até clichê. É tanta pose, tanta etiqueta herdada da elite... que até o leite pasteurizou.(3)


Pra mistura ficar mais genial, cozinhou o espaguete, a lasanha, o nhoque sem confetes do maestro italiano, com seu pitoresco piano a ostentar.(4)


Pro seu folclore, sem ciceronear, arrebatou o biquíni e os efeitos que este traz. Nocauteou as outras terras com seu esportefutebolvoleibol, basquete... tem tanto craque no seu estoque, que  repórter nenhum consegue decorar o recorde

Misturou tudo num sanduíche. E se atualizou nas magazines onde pulover e tenis eram bem melhor usar.(5)

Herdou do Oriente o alfaiate quem trouxe algodão, e o embebedou de alfazema, para perfumar seu ambiente. Aceitou o cuscus e temperou essa algazarra com muita azeitona. Aderiu ao bazar e nele vende tâmaras, xarope, lima, café... coisas pra muçulmano nenhum botar defeito.(6)


Aqui ele não conheceu a guerra, mas sabe as consequências de uma guerra interna, de norte a sul. Tomou um vermute em sua embaixada, se sentindo rico por agasalhar tantas palavras de seus irmãos.(7)


Já celebrava em outras bandas a tal Páscoa, e já dava aleluia à Jesus e Maria, de segunda à sábado. Domingo ele resolveu descansar (quem nunca?).(8)


Já se escondeu em biombo,  foi derrubado no judô. Mas ainda assim se fez samurai e tem gueixas de olhos menos esticados.(9)


Tomou vodka, mas jura que a caipirinha boa mesmo é feita de sua cachaça.(10)


Ele aceitou tudo, aceitou todos... mas de um tempo para cá, anda meio cabisbaixo.

Ele se sente 'deletado', em uma inclusão digital, com tudo computadorizado e ele tem sido  deixado para trás.
Fizeram um 'control alt del'  no seu sistema, e ele anda confuso. Não se encontra nem por um corretor automático. 
Não tem mais aqueles que o defendam... Rui Barbosa, Aurélio... eles jazem esquecidos. Os poucos que o conhecem de fato são chamados de chatos, exigentes. 
Hoje, ele nem sabe mais onde ficar. Não sabe onde se encaixa, não sabe quem lhe escreve, aliás, hoje em dia, ele nem sabe mais se 'quem' se escreve com 'qu' ou com 'k'.
Ele só sabe que está preguiçoso, que está picotado, e que é aceito de várias maneiras, mesmo porque, o que menos sabem é como falar com ele ou escrevê-lo.
Ele não sabe mais onde tem hífen, espaço ou acento.
Ele já pegou o seu assento e se retirou, com vergonha dele mesmo.



* Trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha em 1 maio de 1500
(1)palavras de origem tupi
(2)palavras de origem africana
(3)palavras de origem francesa
(4)palavras de origem italiana
(5)palavras de origem inglesa
(6)palavras de origem árabe
(7)palavras de origem alemã
(8)palavras de origem hebraica
(9)palavras de origem japonesa
(10)palavra de origem russa

fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Portugu%C3%AAs_brasileiro